terça-feira, 20 de setembro de 2011

macaco espacial - por Said Leoni


 sinto-me feliz, e é claro que estou sendo irônico
cada vez mais adequado à rotina
falta-me apenas ser enviado para o espaço sideral

a coisa é simples, questão de aritmética
trabalha-se “x” para ganhar-se “y”
em um cálculo diretamente proporcional

e assim a vida repete-se apenas multiplicando
toda a simples equação por trezentos e sessenta e cinco
anulando os erros aplicando método exponencial

dia pós dia, noite à noite, com sono ou insone
consumando todas as energias
para que tudo se conclua em sacro ritual

é claro que toda infância e juventude
regada a brincadeira e constante educação são espólios
para apenas alimentar o sistema reproducional

mas não se pode esquecer dos muitos excluídos
que privados dos espólios tendem por estatística
a tornarem-se classe fatalmente marginal

porém, com muito esforço e vontade
se batalharem na vida e superarem todas as dificuldades
serão recompensados com medalha de mérito pessoal

um mundo assim perfeito e justo
é, desde que o homem deixou de ser macaco e viajou ao espaço,
o melhor exemplo de felicidade social

fomos a lua, mandamos robôs à Marte
todos prontos para desbravar todo o universo
e criar em cada lugar uma filial

a mão-de-obra é chinesa com custo quase nulo
e para driblar a concorrência é só sonegar os impostos
nada que não se encaixe em uma lógica empresarial

uma dúvida porém se faz pertinente
e para esse projeto torna-se empecilho:
o que fazer com a moralidade da família tradicional?

pergunta boa com resposta fácil,
para combater a barreira da tradição
nada melhor que criar uma nova utopia ideal

tem-se assim sem muito esforço
uma nova realidade baseada no progresso humano
criação do novo, desde o nascimento até o seu final

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